As lendas e as crenças populares ajudam e justificam muitas vezes a origem e as raízes de uma região, assim sendo a freguesia de Santa Cruz possui as suas, é o caso da lenda toponímica:
A lenda alusiva ao topónimo da freguesia no facto de quando os descobridores chegaram a solo Santacruzense no século XV, encontraram elevada densidade florestal, isto é, muito arvoredo.
No local onde os navegantes ancoraram depois de uma viagem tempestuosa, encontraram uma árvore com uns ramos muito grandes, em que dois deles se cruzavam em forma de cruz, daí o nome de Santa Cruz.
Esta freguesia também tem a sua riqueza proverbial, sendo vários os exemplos, quer de provérbios, quer de curas, eis alguns exemplos:
· “Em cama de cães não se encontra senão pulgas”;
· “Quem boa cama fizer bom sono vai dormir”;
· “Chuva em Abril alqueiro e barril”;
Curar do Sol
Senhora Santa Iria
Pelo mar fora iria
Encontrar o Senhor
O Senhor perguntou
Para onde vais Iria
Volta para trás assim
Tu curarás essa cabeça
Com um pano branco de linho
E um copo de água fria
Em nome de Deus
E da Virgem Maria amém.
Põe-se o pano branco dobrado sobre a cabeça e o copo de água fria em cima e cura-se como quem cura da inveja sempre em cruz.
Curar de Aberto
Nas horas de Deus e da Virgem Maria
Deus Nosso Senhor por um caminho
E o Senho São Pedro
São Tomé encontrou e lhe perguntou
O que fazes aqui Tomé
Senhor eu não posso estou conxumento
De um (diz o nome da parte do corpo que dói)
Levanta-te Tomé que vou-te curar
Que na minha sagrada morte paixão cuidar,
Se for carne quebrada há-de sarar,
Se for dor há-de passar,
Se for nervo torto há-de encaixar
Nas horas de Deus e da Virgem Maria,
Eu te cure e Deus te sare amém.
Curar da Zipela
Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo
Amém
Pedro e Paulo foi a Roma
Pedro e Paulo vem de Roma
Jesus Cristo o encontrou
E lhe perguntou por lá
O que haveria Senhor
A minha morte e que doença seria
volta atrás Pedro e Paulo
Leva palma e oliveira e cura desta maneira
Se é zipela ou zipelão
Vai para a serra ou para o mar
Que este (nome da pessoa) é pobre não
Pode dar o mar a quem é rico e te pode sustentar.
Cura-se com sete raminhos de oliveira e sete raminhos de palma, todas as vezes tem de ser com os sete raminhos de cada e deve ser feito nove dias seguidos.
Curar da Inveja
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém (benzendo-se)
Nome da pessoa, sou eu que te cure e Deus te acuda
Às tuas necessidades, Santa na parié, a Virgem parié,
Jesus são as três pessoas a Santíssima Trindade
Serão servidas tirar o mal do teu corpo, se é no teu comer,
se é no teu beber, se é no teu vestir, se é no teu calçar,
No teu sorrir ou no teu trabalhar, na tua gordura ou formusura, o Anjo do Senhor o mande deitar na serra
Ou no mar com todo o prazer onde não ouça cantar galinha
Nem galo Jesus credo.
Alecrim verde
Verde alecrim
Tirai este mal
Que aqui está em ti
(repete-se três vezes)
Alecrim verde
Que nasce no campo
Curai este mal
E este assombrante
(repete-se três vezes)
Eu te cure em louvor
Do Santíssimo Sacramento
O que é mau vá para fora
O que é bom venha para dentro
(repete-se três vezes)
Reza-se o credo em Deus Pai, todo.
No fim: Credo em cruz
Credo em cruz
Credo em cruz
Cura-se com três pontas de alecrim, 9 vezes seguidas,
Durante 9 dias seguidos.
As festas e romarias são indispensáveis em qualquer região, visto que retratam a mentalidade de um povo e juntamente com o ambiente religioso que se cria, está também presente a parte profana, com a alegria que se vai gerando. Eis alguns exemplos:
Greve
É uma romaria, que se realiza no dia 2 de Janeiro, nos sítios dos Moinhos e Levadas. Esta romaria surgiu como oitava do primeiro dia do ano, isto é, as pessoas prolongavam os festejos do primeiro dia do ano por mais um dia, fazendo, assim, greve aos trabalhos do campo e vivendo com alegria e entusiasmo esta oitava. Esta romaria caracteriza-se pelo facto de um grupo de populares, com instrumentos tradicionais que vão percorrendo os ditos sítios, cantando e bailando, comendo e bebendo aquilo que as pessoas vão oferecendo quando lhes passam perto de casa. É importante salientar que os tocadores levavam uns trajes muito garridos, com cores vivas e alegres, demonstrando assim o espírito alegre do povo madeirense.
Cantar dos Reis
Na noite do dia cinco de Janeiro para o dia seis, as pessoas reúnem-se em grupos com instrumentos e percorrem as casas cantando os Reis. Esta caminhada dura a noite inteira, porque as pessoas vão cantando e muitas vezes tentam percorrer as casas de todos os familiares, conhecidos e amigos.
Santo Amaro
Esta festa realiza-se a 15 de Janeiro em Honra do Santo Amaro, que remonta ao século XVII. É a maior festividade da freguesia, onde ocorre muitos fiéis para pagarem as promessas e graças alcançadas que pediram ao Santo Amaro. Esta festividade é o culminar da Festa (quadra natalícia), onde neste dia se efectua o varrer dos armários, isto é, acabar com os restos (licores, doces, broas) da Festa.
Divino Espírito Santo – Segredos
O Espírito Santo é uma festividade de cariz fortemente religioso, que se comemora todos os anos no primeiro Domingo a seguir à Páscoa e prolonga-se por mais sete domingos, e que consiste numa visita domiciliária aos casais da freguesia com o intuito de levar a mensagem Pascal e recolher receitas para a igreja.
Quanto aos “segredos” é um costume que se mantém por toda a freguesia e que se realiza aos fins de Domingo depois das visitas do Espírito Santo às casas. Este costume consiste na recolha de ofertas feitas pelos paroquianos, de valor e conteúdo desconhecido. Estes depois são objecto de arrematação pública, o dinheiro reverte para os fundos da Igreja.
São Pedro
Esta festa é em honra do Santo Popular São Pedro, acontece todos os anos no dia 29 de Junho. É uma verdadeira romaria, porque é o único lugar da freguesia, onde ainda se realiza a romagem que parte das Fontes dos Almocreves e desce toda a Lombada até chegar ao adro da Capela. No romagem vem uma barca com as oferendas em bens, que depois da romagem serão arrematados e cujo produto (dinheiro) reverterá para custear a festa bem como obras na capela.
Festival de Despique
Este evento é organizado pela Câmara Municipal de Santa Cruz, que pretende preservar o “despique” popular, isto é, as cantigas de quadras soltas que surgem momentaneamente da boca de quem canta e caracteriza o povo da Madeira, que sempre viveu a dureza da vida com altivez e nunca descurou a alegria do seu espírito.
Santíssimo Sacramento
Esta festividade é em honra do Santíssimo Sacramento, ocorre todos os anos no terceiro Domingo de Julho. Nas ruas da cidade, cada sítio da freguesia constrói um tapete de belas e exuberantes flores naturais que abundam nesta Pérola do Atlântico, onde depois de construído o Santíssimo Sacramento percorrerá em procissão. Esta festividade é o culminar da Páscoa da Ressurreição.
Festival de Folclore
O primeiro encontro de folclore surgiu em 1995, aquando da visita de um grupo de folclore de Saint-Ammans – Paris, a Santa Cruz, alguns elementos do Grupo de Folclore da Casa do Povo de Santa Cruz, entenderam ser a hora de “arrancar” com a realização de um Encontro de Folclore que promovesse a freguesia e o rico folclore da Madeira e Santa Cruz. Este evento segundo os responsáveis é para continuar a divulgar os nossos usos, costumes e tradições.
Encontro de Música Tradicional
Este evento surgiu da necessidade sentida por um conjunto de pessoas de preservar a música tradicional madeirense e portuguesa (do continente também), este evento está desde o início ligado ao Grupo Música Tradicional Sol Nascente da Casa do Povo de Santa Cruz.
Festa de Nossa Senhora dos Remédios
A Festa de Nossa Senhora dos Remédios prende-se com a evocação da saúde e do Perpétuo Socorro, aparecendo com entusiasta evocação a partir dos séculos XVI e XVII. Todos os anos no dia 8 de Setembro se comemora a festividade em Honra da Senhora.
As danças e cantares são uma das peças importantes que nos mostram a cultura da região, isto porque normalmente se transpõe a realidade do dia-a-dia, para as letras dos cantares e para a dança. Eis um exemplo de quadras cantadas de Santa Cruz:
Brinco D' Oito
Tenho meio tostão
No fundo do meu baú
Para dar ao meu amor
Queira Deus não sejas tu
Tenho dores na cabeça
Que o sarampo me deixou
Já podia estar casada
Por causa de ti não estou
Suspirar é meu costume
Quando de ti estou ausente
Nada no mundo me alegra
Só de ver-te ando contente
Já te tive na mão presa
Pelo pé como a perdiz
Digas que me deixaste
Fui eu que não te quis
Vou-te comprar um vestido
Quando dinheiro tiver
São os olhos mais bonitos
Que eu vi numa mulher
C' a minha vaca amarela
Dei uma volta na Eira
Procura lá quem te sirva
Que já tenho quem me queira
Quando te vejo adejo
Que faria se te amasse
Lograva carinhos teus
S' a tua boca beijasse
Dizes que gostas de mim
Esse teu querer é um engano
Reatas na minha vida
Como a tesoura no pano.
Os trajes característicos, também nos mostram a história e a cultura desta freguesia, eis alguns exemplos:
Traje domingueiro de mulher:
A mulher veste saia de lã vermelha, colete de baeta (filtro) vermelho,blusa de linho de manga curta, bota curta com risca vermelha, capa de baeta (filtro) azul e carapuça com toalha de cabeça.
Traje domingueiro de mulher:
A mulher veste saia de lã vermelha, colete de baeta (filtro) vermelho,blusa de linho de manga comprida,bota curta com risca vermelha, capa de baeta (filtro) azul e lenço amarelo.
Traje domingueiro de mulher:
A mulher veste saia de baeta azul, blusa de linho (descaída em cima da saia), bota curta com risca vermelha e carapuça com toalha na cabeça.
Traje de trabalho de mulher:
A mulher veste saia de lã vermelha debruada a linho branco, blusa de linho (descaída em cima da saia), bota curta com risca vermelha e lenço vermelho.
Traje regional de mulher, oriundo dos Canhas:
A mulher veste saia de lã listada, colete de baeta (filtro) vermelho, blusa de linho, bota curta com risca vermelha, capa de baeta (filtro) vermelha e carapuça com lenço.
Traje serrano de homem:
O homem veste calça de seriguilha (lã de ovelha), camisa de linho, colete de seriguilha, bota de cano curto e barreto de seriguilha.
Traje de cote e trabalho de homem:
O homem veste calção, camisa e faixa de linho, carapuça e bota de cano curto.
Traje de cote e trabalho de homem:
O homem veste calção, camisa e faixa de linho, colete de seriguilha, carapuça e bota de cano comprido; este traje pode ser usado com ou sem colete.
Traje domingueiro de homem:
O homem veste calça de baeta azul, camisa de linho, carapuça e bota curta.
Os jogos tradicionais, tal como tudo o resto, fazem parte da cultura e mesmo do dia-a-dia da população, que sempre se diverte com eles. Entre os jogos praticados na região encontram-se os seguintes:
Jogo do Pião
Jogo efectuado pelos jovens na época da Páscoa, este jogo consiste no seguinte: os jovens juntavam-se em grupo e faziam uma roda e colocavam no centro um pião. Cada elemento tinha o seu pião e tentavam jogar o pião que tinham na mão para acertar naquele que estava no chão também é conhecido por “jogar à ferrada”. Nos dias de hoje raramente se encontra alguém a jogar ao pião.
Jogo da Carapuça
Jogo que se realizava nos tempos livres do trabalho do campo, onde a malta se reunia para se divertir um pouco. A carapuça era feita com uma folha de couve e consistia no seguinte: a malta fazia a roda e no meio ficava a rapariga mais travessa com a “carapuça” na cabeça. Enquanto isso o pessoal da roda ia rodando e cantando algumas quadras:
Tá no meio uma menina
De todas a mais travessa
Tá no meio castigada
Carapuça na cabeça.
No fim das quadras a rapariga do meio ia perguntar a um rapaz da roda se queria casar com ela e ele dizia que não. Aí ela cantava a seguinte quadra:
Eu já estou arrependida
De me fazer tão travessa
Vou colocar a carapuça
Em alguém que a mereça.
Enquanto não chegasse à última quadra, somente na última quadra é que ele dizia que sim e ambos entravam para o centro da roda a dançar e a cantar.
Jogo do Anel
Este jogo é realizado nos dias de Verão e principalmente aos domingos, quando os jovens se reuniam para descansar dos trabalhos árduos do campo. Este jogo era feito a partir de uma roda de rapazes e raparigas e de um barbante, cada elemento agarrava o barbante, mas este era rolante porque ia circulando entre os elementos, que era para facilitar a passagem do anel de um para o outro, enquanto que um elemento ficava no meio para ver onde é que o anel estava. Quando este via o anel deitava a mão e aquele que perdia o anel entrava para o meio e assim continuamente. Enquanto isso o pessoal ia cantando o jogo.
Jogo do Balamento
Jogo característico da Páscoa, onde dois indivíduos, faziam o seguinte: combinavam entre eles o motivo que lhes proporcionaria dar balamento ao outro, podia ser a estrela a aparecer no céu. A partir de então, cada um tinha de vigiar o outro e logo que visse dizia “balamento”, cada balamento dado correspondia a um ponto. No Sábado da Aleluia quem tivesse mais pontos ganhava o jogo, que poderia ter de pagar as amêndoas ou um pião ou outra coisa, era aquilo que tinham combinado no início do Jogo.